Espanha, Itália e França – março, abril e maio 2016 – perrengues e alegrias.

Eu nunca tinha pensado em conhecer a Espanha. Na verdade nunca foi uma brisa minha conhecer a Europa com exceção da Islândia  que vai ser a viagem da minha vida e dos países nórdicos pela arquitetura e natureza. Pois bem, eu estava com depressão e achei que poderia ser uma boa ideia ir pra lá, uma tentativa de ir pra longe e ficar bem, descobrir o sentido da vida e todas essas coisas que a gente pensa quando viaja querendo fugir um pouco de nós mesmos. Minha terapeuta disse que o incômodo que eu sentia não mudaria se eu fosse pra outro lugar. Ela estava certinha. Ela é ótima! Aliás, saudades terapia…
No primeiro mês fiz tudo que alguém não faria quando se vai a Europa pela primeira vez. Não fui a lugares turísticos, acordei tarde, fiquei dentro de casa.
Fiquei muito tempo só. A casa onde estava hospedada era perto de uma montanha que tinha uma vista 360º de Barcelona, perto do Parque Guell. Subi lá algumas vezes pra fumar um, pensar na vida, no que eu estava fazendo alí, o que eu estava buscando. Nunca me senti tão perdida. Subia na esperança de ver um sinal divino me dando uma direção. Obviamente não aconteceu.

No meio de tanta bagunça interna senti uma sensação boa no decorrer dos dias: não ter medo na cidade. Me sentia segura voltando bêbada ás 2 da manhã escutando um som no fone de ouvido. Sério! que sensação incrível. Até pensei que queria morar lá por causa disso, mas passou. hahaha.

Em dois meses de rolê eu guardo no coração somente o segundo mês. O primeiro foi remoendo tristezas que eu já conhecia, ganhando novas tristezas com energias pesadas qu me rodeava, fui pra Itália participar de uma feira de publicações independentes e foi de longe o pior rolê da minha vida, um cara me agarrou na rua, só conheci macho babaca e ainda demorei dias pra sair de lá por uma treta que não era minha. Enfim, aquele período na vida que eu tô bem de boa de lembrar.

O segundo mês foi incrível! Conheci as pessoas mais lindas que poderiam ter aparecido no meu caminho, colei meus lambes em pontos muito legais de Barcelona, conheci a cidade toda, várias brejas artesanais, recebi o abraço mais puro da minha vida, comidas veganas maravilhosas, fiz amigos que quero muito ver outra vez. Deu até um calorzinho bom na alma lembrar de tudo isso.

Eu não era de fazer registros fotográficos (agora eu sou), mas tenho algumas ~ibagens que representam bastante como as coisas foram.

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Essa foto retrata a vibe do primeiro mês de viagem.

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Ok. Esporadicamente aconteciam momentos bonitos no primeiro mês.

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Parque Guell bem lindo, porém estava sem cabeça pra curtir rolê turístico. Só fui porque é na mesma rua onde fiquei hospedada. Hahahaha

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Foto horrorosa de alguma ruína em Bologna, na Itália. Horrorosa como todos os meus dias nesse país. Só tenho foto porque a minha ex-sogra pediu.

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No caminho de resolver a treta que não era minha, conheci o sul da França. Por onde passei é bem parecido com Araraquara, só que sem o cheiro enjoativo de laranja. HAHAHAHA

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Sorrindo, porém chorando.

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O trampo que mais gostei de ter feito em Barcelona.

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Ainda bem que a vida deixa a gente viver umas histórias legais, né… Montserrat fica há umas duas horas de Barcelona e é um dos lugares mais bonitos que fui nessa viagem com a história mais doce que tenho pra contar. (por enquanto, assim espero)

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Se você for pra Montserrat e no caminho ver alguma fonte d’agua, talvez encontre um pedaço do meu coração por perto.

Depois de acampar em Montserrat, Eu já não tinha mais onde ficar em Barcelona, então decidi conhecer Madrí. Consegui um blablacar de Vilanova I la Geltru direto pra lá, mas obviamente alguma coisa daria errado, né mores. Quando estava indo pra Vilanova a pessoa cancelou minha viagem e eu estava longe de tudo e sem ter onde dormir naquela noite porque advinhem só: não tinha um fuckin’ hostel na cidade. Tive uma “pequena” crise de ansiedade/nervoso/queria estar morta, larguei as malas e comecei a chorar, mas sempre aparece um abraço pra salvar.

No dia seguinte eu tinha um mapa muito mal desenhado (desculpa, estava bem difícil de entender) de onde deveria pegar uma carona de amigo do amigo do amigo não sei de quem e as minhas coisas.

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Eu tinha muitas horas pra esperar o outro blablacar e pouca coisa pra fazer, então desenhei a cidade, fiz fotos conceituais, fiz selfies também. Teria sido massa se o Pokémon Go existisse nessa época.

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Não parece, mas eu estava bem fedida depois de horas debaixo desse sol.

E finalmente a carona chega! Um furgão com 8 lugares que daria carona para mim e pra mais 6 pessoas. Daria. Se o furgão não tivesse quebrado no meio do caminho. HAHAHA.
Ficamos toda a tarde esperando o seguro do carro chegar pra levar a galera até o lugar mais próximo que tivesse civilização.
img_8853Enquanto isso não acontecia, fizemos amizade com os dromedários de uma mulher que morava no meio do nada. Ela era da Letônia e disse que trabalhou em um banco na Alemanha e na Irlanda também. Então tá.

Depois de dividir muitas historias de vida com uma mina colombiana abençoada que tinha um gato na mala e um beck, o carro do seguro finalmente chegou. A galera se aglomerou pra ir embora no primeiro.
Sobraram mais 4 pessoas. Euzinha, Paloma que e a dona do carro que quebrou e mais dois caronas. Pegamos o segundo táxi do seguro e chegamos em uma cidade chamada Zaragoza. Pra resumir, Todo mundo foi embora pegando trem, alugando carro ou bus e a Paloma iria ficar sozinha, sem carro, sem grana porque todo mundo foi embora sem pagar o blablacar dela, sem roupa de frio porque estava contando que voltaria pra casa naquela noite. Decidi ficar com ela no terminal da cidade na madrugada porque mina não deixa outra mina sozinha, né migas. Olha aí a oportunidade de exercer a empatia e sororidade que a gente tanto fala na internet, né?  Com a ajuda das Deusas achamos o único boteco aberto nas redondezas.

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Já estávamos ferradas mesmo, então a gente comeu um junkie food muito do mal e tomamos breja.
Depois de satisfeitas, voltando pro terminal achamos um gatinho perdido e Paloma que tem em sua casa 21 coelhos (é serio!) quis adotar o pobrezinho, mas depois de muitas tentativas de atrai-lo, o gato fugiu e a gente viu que era melhor ir logo pro terminal. Lá conhecemos um tiozinho da Romênia que disse que em seu país faz -25 graus e que tava de boa com os 0 graus daquele momento. Depois de muitas emoções e trocas de cultura, ás 5 da manhã peguei um bus pra Madrí me despedindo com um abraço muito confortante de até logo da Paloma.

Eu achei Madrí muito legal mesmo, mas as pessoas que eu estava também ajudaram bastante. Fiquei hospedada na casa de um casal do Pará. Eles são muito maravilhosos. Também curtiam emo em 2004 e ficamos relembrando vários sons e trocando muitas ideias. Esses dois eu sei que vou encontrar de novo. Não aceito não encontrar eles de novo nessa vida e tenho dito.
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Montando esse post descobri que só tenho essa foto de Madrí. Significativa.
Usei meu tempo sendo o mais leve que eu conseguia ser, tomando mais cervejas e me despedindo dos momentos mais singulares que viví.
Meu último dia de Madrí foi também o dia do último abraço. Depois de ver aqueles olhos com cor de praia de imagem de fundo do Windows pela ultima vez, apertei bem forte o isqueiro do snoopy que ganhei antes desses mesmos olhos irem embora e chorei até dormir alí mesmo no aeroporto. Um dia desses eu chorei igual, mas de boa. Vida que segue, né.

Voltei pra Barcelona na última semana pra fazer um graffiti que fui convidada e curtir os últimos dias com a Paula que apareceu como um anjo nessa viagem e que segurou a minha onda mais do que ela mesma imagina.
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Colamos esse lambe juntas em Can Batlló, uma ocupação em Barcelona com uma história incrível de união de moradores em defesa de melhorias para o bairro.

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E esse foi o meu último trampo, no último rolê, no último dia dessa viagem que mudou a minha vida, o meu jeito de pensar e de fazer as coisas.

Aconteceram as coisas mais improváveis dentro e fora de mim nesse período. Até os piores dias eu levo com carinho porque sem eles eu não teria aprendido a me afasta de coisas que me fazem mal. Aprendi a viajar, aprendi que existem pessoas incríveis no mundo por mais que o cotidiano diga que não, aprendi a perceber o que os momentos de perrengues tem pra ensinar e que o mundo não é tão grande como eu pensava que fosse.

Foi legal conhecer essa parte do planeta e ano que vem eu pretendo voltar ao continente colonizador, mas voltei gostando muito mais do meu país e dos nossos vizinhos.

Faria tudo de novo.

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2 comentários em “Espanha, Itália e França – março, abril e maio 2016 – perrengues e alegrias.

  1. Que delícia de relato ❤

    Me fez lembrar de alguns momentos – difíceis e lindos – que vivi no continente colonizador… Acho que você vai amar Paris e Berlim 😉

    Montserrat é foda de lindo ❤

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  2. mto massa miga 🙂 viajar sozinha é um encontro consigo mesma e é perrengue mesmo!
    pelo menos vc conseguiu becks o que eu acho super incrívei e difícil de fazer sendo uma gringa na gringa u.u

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